Auditório cheio. O professor Sifrônio Luccas abriu o seminário de literatura da Universidade Federal com a frase:
— Tudo que o Machado de Assis nos deixou escrito é literatura de valor universal.
Um homem de terno em desalinho e barba por fazer, ergueu-se na oitava fila da platéia e falou alto, de maneira que todos ouvissem:
— Desculpe interromper, professor, mas tenho que discordar. Nem tudo que o Machado escreveu é importante e eu posso provar – o homem acenou uma folha e encarando o público que o olhava como se olhasse um maluco. – Não é uma opinião. Eu tenho um escrito inédito do escritor Machado de Assis. Posso ler para vocês.
O professor ficou curioso com a afirmação de que um texto inédito do maior escritor brasileiro aparecesse agora. Devido à maneira arrogante do intruso, ele não teve outra saída a não ser deixar o homem subir até o palco.
— Eu estou curioso e acho que todos aqui também querem tomar conhecimento destes escritos que o senhor diz serem inéditos, o que eu duvido. Não devem ter nenhum valor literário.
O homem subiu ao palco e a ele foi dado um microfone:
— Sei que todos vocês são machadianos como eu. Sei que provavelmente conhecem toda a obra do bruxo do Cosme Velho. Mas este texto eu achei dentro de um livro que comprei no sebo. Era um volume de poesia de um desconhecido, onde havia uma dedicatória para Machado de Assis. O livro pertenceu ao escritor que colocou dentro dele, sabe-se lá por que, esta folha de papel. Paguei do meu bolso um exame de grafologia e tenho o atestado de que a letra neste escrito é mesmo de Machado de Assis.
O homem mostrou a folha de papel amarelada pelo tempo. Todos esperavam aflitos a leitura do que chamava de “ um escrito inédito de Machado de Assis”. Ele ajeitou os óculos e leu:
Rio de Janeiro
1 camisa
3 lenços
4 pares de meia
1 toalha de rosto
1 tolha de banho
1 lençol
2 fronhas de travesseiro
1 toalha de mesa
E o homem finalizou:
— É um rol para a lavadeira. Nada machadiano — disse o homem, descendo do palco. Sem receber nenhuma palma.
Aviso
Um escrito inédito de Machado de Assis
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Labels: contos e causos
Cartuns para cinéfilos (16)
Cães de Aluguel
Louca Obsessão
A Mão que Balança o Berço
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Segredos do Outro Mundo
Lia e Lea eram irmãs e sempre morreram de medo de assombração. Quando crianças fizeram um pacto: nenhuma delas iria aparecer para a outra depois da morte.
Estavam bem idosas quando Lea morreu. Contrariando o pacto, Lea apareceu para Lia numa noite de chuva, dessas que os trovões discutem em voz alta e os relâmpagos, como crianças em festa, ziguezagueiam pelo céu. Lia levou um susto tão grande que, ao abrir a boca, a sua dentadura caiu. Não esperava a visita da alma da irmã, afinal, Lea descumpriu o trato que ambas fizeram quando crianças. Mas, já que Lia estava ali, toda fantasmagórica, a irmã perguntou como era o outro mundo; quis saber por que os fantasmas tinham que puxar os pés dos vivos. E Lea contou o segredo que ninguém, até então, nunca soubera:
— Ser assombração é um emprego, e a gente recebe por pé puxado.
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Cartuns para cinéfilos (15)
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Rambo
Dormindo com o Inimigo
O Náufrago
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Cartuns para cinéfilos (14)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Prenda-me Se For Capaz
O Pagador de Promessas
Ghost, do Outro Lado da Vida
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O Pistonista
A campainha tocou. Abri a porta. Um homem baixo, de terno escuro se apresentou.
— Sou Geraldo, pistonista profissional. O senhor, por acaso, não estaria precisando de ouvir algumas músicas?
Estranhei. Era a primeira vez que um músico batia na minha porta com uma proposta desta, tão singular. Curiosamente, eu estava precisando ouvir algumas músicas. Convidei o músico a entrar. Ele entrou, sentou-se no sofá, retirou seu pistom da caixa preta e por vinte minutos me deleitou com as músicas do seu repertório e duas peças que sugeri e que ele prontamente atendeu.
Quando terminou, o pistonista guardou o seu instrumento na caixa preta.
— Quanto é? — perguntei.
— 200 reais — me respondeu.
— O senhor vai me desculpar — eu estava constrangido — mas eu só tenho 50 reais aqui comigo.
— Mais barato do que isso não pode ser — disse ele com uma delicadeza que não escondia uma ponta de gravidade. — Você sabe, eu sou um profissional, já executei o serviço.
Eu tinha que resolver o problema. Pedi ao pistonista que esperasse um pouco. Fui até o meu quarto e peguei a minha máquina de escrever. Voltei à sala e escrevi 150 reais de poemas, completando assim a quantia pedida pelo músico.
O pistonista guardou as cédulas e os poemas em sua carteira, pegou o seu pistom e se foi em busca de um novo freguês.
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