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MEMÓRIAS DE UM LOBO MAU
Minha tia Augusta, de 84 anos, solteirona, morreu semana passada. Antes de morrer me deu uma caderneta com anotações que fora esquecida em sua casa por um amante recente. Confesso que o fato de saber que ela transara um mês antes de morrer me chocou. Sobre o namorado minha tia Augusta apenas disse que ele se dizia um arqueólogo sexual e que era o famoso Comedor de Vovozinhas. Até então eu achava que essa figura (o tarado por mulheres provectas) era apenas uma lenda urbana, mas os escritos provam que realmente o papa-velhinhas existe. Publico aqui alguns trechos que selecionei.
1) Dona Risomar disse que tinha completado oitenta e duas primaveras. Se eu fizesse o teste de carbono 14 confirmaria sua verdadeira idade: 90 anos redondos.
– Me aperte forte – Dona Risomar pedia. E eu:
– A senhora sabe que é perigoso.
E ela:
– Dane-se a osteoporose!
2) Dona Violeta, 86 anos, na hora do “vamos ver”, balbuciava vocativos anacrônicos. De olhos fechados rangia a dentadura ao dizer coisas do tipo: “Tô no sétimo céu!”/ “Vai, vai, vai, meu Alain Delon!/“Você é papo firme! Uma brasa, mora!”/ Me foda “à media luz!”, “La barca vai partir!” E dizia que eu era batuta! Um turuna! Pra usar uma gíria do tempo dela: a velhota era bidu!
3) Doía ouvir as vovozinhas dizerem que me amariam pelo resto de suas vidas. Em alguns casos isso significava dois meses.
4) – O que você viu em mim? – Dona Manuela perguntou – Eu sei que você não está comigo por causa das minhas belas cataratas – Dona Manuela tinha humor.
5) Pedi à Dona Isolda que fizesse um strip tease. Ela tirou tudo, inclusive o par de dentaduras.
6) Foi uma briga feia. Dona Geralda atirou em mim tudo que lhe veio às mãos: panelas, jarras, pratos, a muleta canadense e o aparelho de surdez.
7) Eu entrei na lista dos que comeram Dona Vânia, uma ex-vedete do Cassino da Urca. Fui incluído na sua lista onde constavam celebridades como: Sergio Porto, Jorginho Guinle, Nelson Gonçalves, Garrincha, Jece Valadão e, pasmem! – Walt Disney.
8) Dei uma tremenda mancada e quase não rolou a transa com a Dona Catarina. Coloquei na vitrola um disco da cantora Marlene. Ela era fã da Emilinha.
9) A neta, Bia, estralando de gostosa – um tesão para quem gosta de uma Luana Piovani com 18 aninhos – deu em cima de mim, mas me mantive fiel à Dona Hortênsia. Quem tem a vovó não precisa de Chapeuzinho Vermelho.
Hoje, quando alguém diz que uma vetusta parenta morreu com um sorriso nos lábios eu vou logo pensando que se trata de mais uma vovozinha que foi comida pelo Lobo Mau.
UM NEGÓCIO MALFEITO
Já ouvira falar que as pessoas vendiam a alma para o diabo. Acreditava e não acreditava. Passou a acreditar quando um diabo apareceu em seu quarto querendo comprar a sua alma. O diabo ofereceu muito dinheiro e alguns poderes. Não foi pelo dinheiro, mas os alguns poderes o seduziram. Teria o poder de ficar invisível e o poder de voar.
Aceitou vender a alma para o diabo que lhe garantiu que ela (a alma) não arderia no inferno. — Isso é invenção da Igreja — explicou o diabo acrescentando que, comparando com a vida dele cá na terra, o inferno era um ótimo lugar.
Acertaram os detalhes: a quantia de dinheiro, o poder de ficar invisível (ele fez um teste frente ao espelho) e o poder de voar (ele voou pelo quarto, foi até a sala e voltou). Tudo funcionava. Outra coisa: ele não cheirava a enxofre (outra invenção da Igreja). O dinheiro estava num saco e ele nem quis conferir. Assinou o documento: quando morresse, sua alma seria do demônio. Selaram tudo com um aperto de mão. O diabo se despediu e sumiu como por encanto.
Já era tarde da noite. Cansado, o homem que vendeu sua alma ao diabo foi dormir.
Quando acordou teve uma surpresa. O diabo com o qual negociara estava no quarto acompanhado de outro diabo, hierarquicamente superior; este pedindo desculpas, disse que o negócio teria que ser desfeito.
— Houve um engano, o diabo que fez o trato com você não tinha autorização. Não que você não valha o preço pago, não é isso, mas há pessoas que estão na lista de espera, há prioridades, entende?
Sem se convencer, o homem entregou o contrato ao diabo, superior hierárquico do outro, que o queimou entre os dedos, reduzindo-o a cinzas.
E pedindo mil desculpas, dizendo que ele estaria na lista para o futuro e que um dia o procurariam, os dois diabos sumiram, levando o saco de dinheiro e os poderes.
Na pressa, e o homem só descobriu muito tempo depois, os dois diabos não lhe tiraram todo o poder de invisibilidade. Ele conseguia, quando queria, tornar a sua orelha direita invisível. Coisa que só lhe servia para divertir a garotada da rua.

