O agnóstico cedeu e pediu um catálogo para que pudesse escolher um deus em que acreditar. Não um deus de barbas, não um deus sem barbas, não um deus histriônico, nem irônico, nem irado, nem perverso, nem omisso, nem submisso, nem vaidoso e nem muito modesto. Sua alma saberia quando ele visse o rosto do seu futuro deus. E ele viu a foto e apontou com o dedo dizendo: é este!
O deus escolhido surgiu à sua frente, mas antes de ver e crer o agnóstico exigiu um currículo. Lido o currículo, o deus foi aprovado mas só entraria em seu coração na semana seguinte.
Quatro dias depois, o agnóstico morreu. O seu deus não chegou a pegar no serviço.
Aviso
O Agnóstico
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
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AMORES DALTÔNICOS
Fabiano pediu uma passagem no guichê da rodoviária para qualquer lugar que não tivesse verde. E encontrou um lugarejo onde as árvores eram estéreis de folhas e até o pisca-piscar dos vaga-lumes eram lilases. Poucas casas encardidas pela poeira vermelha e na bandeira da única escola o verde era um pendão carmim. Gostou porque nada havia que pudesse lembrar os olhos hortelã de Marilene. Nada branco que lembrasse o sorriso marfim que um dia lhe tirou um naco da alma quando ela lhe disse: - Suma-se da minha vida. - O dono da pensão aonde ia se hospedar disse que no local não servia saladas. O comerciante também fugira do Rio e vivia naquela vila vermelha como um caroço na melancia. Fabiano pagaria adiantado um ano de aluguel e estendeu as notas de dólares sobre o balcão. Os olhos do dono da pensão se orvalharam e ele balbuciou:
– Verdes... como os olhos de Marilene.
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Fábula
O cordeiro estava bebendo água no rio quando chega o lobo.
– Seu puto, você tá poluindo a água do rio.
– Impossível, lobo. A água corre pra baixo e não tem como.
– Se não foi você foi o veado de seu pai. Se não foi ele, foi a vaca da sua mãe, ou a piranha da sua irmã ou algum outro filho-da-puta de sua família.
– Fica frio, lobo. Tu tá muito estressado – disse o cordeiro.
– Estressado é coisa de boiola. Vou te apagar e comer seu fígado – disse o lobo, avançando com um fuzil de uso exclusivo das Forças Armadas pra cima do cordeiro.
Então o cordeiro puxou debaixo do seu casaco de lã uma metralhadora UZI israelense e acertou uma rajada de azeitonas no lombo do lobo, que caiu e foi levado pelo rio.
MORAL: TEM GENTE QUE SÓ MATANDO.
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